Parte I

          Eram sete irmãs. Seis se casaram. Menos uma. E a mais bonita. Filhas de um pequeno comerciante, que a todas reservou boa educação e dote considerável. Pouco comum, naquele tempo, as mulheres freqüentarem escolas. Mas elas freqüentaram ensino pago. O pai não poupou esforços. Trabalhava no velho armazém como escravo. Ele sabia que não era fácil casar uma filha que não tivesse boa educação e uma quantia razoável de moedas. Até à sua morte, durante mais de quarenta anos, quem passasse pela rua, podia vê-lo trabalhando até altas horas. Costumava-se dizer que ele tinha calos na barriga de tanto esfregá-la no balcão.

A todas elas, choveram pretendentes. Afinal, que moço de nossa região não desejava uma oportunidade desta?  Todas belas, nenhuma com defeitos graves, a não ser umas pintas aqui e acolá, que ajudavam a deixá-las mais bonitas. Maria, Judite, Lindalva, Rosa, Elisa, Joana e Francisca. Dos dezoito anos aos vinte, uma a uma foi-se casando, deixando o ninho. Mas Lindalva, talvez a mais bela, não deixou.

Todos se perguntavam: o que havia de estranho? Por mais que indagassem, nada era visível. E isto atiçava a curiosidade de nossa gente. Somos uma espécie de seres aguçados pela magia que o desconhecido proporciona.

Fim da Parte I