Casa de mulheres

  

A conversa desencontrada e em forma de alarido enchia a casa.

            -- Calem a boca! Calem-se! Que coisa! Parecem um bando de maitacas -- gritou Madame Teresa, enfurecida.

            Passava das seis da tarde e as luzes do casario começavam a acender-se. Alguém ligara o motor a diesel. Luz elétrica só a diesel. Só quem podia. Os garimpeiros se contentavam com velas ou lamparinas a querosene. Os mais pobres, recém-chegados, tinham a lua e as estrelas para contemplar.

Madame Teresa estava com uma blusa preta e anáguas cor de rosa, estirada no sofá  de couro central da larga sala, com as pernas abertas, dirigindo o jantar, bem na frente do balcão do bar.

            Chamou a criada mulata, cabelos pixains, de lábios carnudos e ancas gordas, que já não servia para nenhum homem.

            -- Vá, Chiquinha, chamar todas essas raparigas. Logo chega gente e elas já deveriam estar por aqui. Elas falam até pelos cotovelos, arre!  É preciso sempre estar chuchando essas mulheres como se chucham os bois.

            -- Paciência, Madame, elas são espevitadas, sem juízo. Pra elas, rir é um bom remédio...

            Duas moças entraram de meias, correndo.

            -- Mas que correria é esta? Fiquem quietas. Consuelo! Adelaide! Fiquem quietas. Se o Pastor vier, é bom tirar até a bíblia dele. Ele já nos deve uma boa grana. Ele não me passa a perna. Não nasci ontem.  Joselito, pegue o caderno, veja quanto ele deve. Ou melhor, traga o caderno aqui.

            Joselito saiu detrás do balcão com o caderno velho nas mãos. Andava e sacudia as nádegas enchidas com pano e algodão, como as mulheres que não têm seios grandes fazem,

            -- Mas que droga, Joselito! Deixa de ser puto. Quando não está trabalhando, já disse, não precisa se sacudir tanto. Ande direito, como trabalhador. Rebole pros seus homens, pelo amor de Deus!

            Folheando o caderno, correu os dedos sobre as contas.

            -- Aqui está. Só da noite passada, o Pastor deve mais de mil reais. Hoje, meninas, ajam sem piedade. Empurre uísque goela abaixo do safado e saquem até a bíblia, se for necessário. Ele pensa que pode simplesmente ir pendurando a conta e paparicando minhas garotas. Está muito enganado. Com Madame Teresa, não há conversa. Eu quero dinheiro.

            Entregando o caderno a Joselito, novamente se escanchou no sofá velho, voltou a chamar pelas meninas.

            -- Suas maitacas! Venham já pro salão. As luzes já estão acesas. Andem, andem! Menos conversas e mais ação. Não quero ver ninguém com cara de tacho! Homens gostam de meninas alegres, faceiras.

            De fato, Joselito, o garção, já acendera as luzes verdes, azuis e rosas. Lá fora, aos poucos, a noite chegava. Mais seis mulheres entraram na sala. Estavam limpas e maqueadas.

            -- Uma bíblia não vale tanto, nem que fosse de folha de ouro -- comentou Adelaide, rindo, enquanto alisava o cabelo moreno.

            -- Eu quero dar uma lição nesse safado!

            Aos poucos, as mulheres ocuparam em silêncio os velhos divãs. Havia de todos os gostos e bolsos: altas, gordas, baixas, magras, jovens, adolescentes, loiras, ruivas, olhos pequenos, olhos grandes, brancas, morenas, pardas, negras. Todas se pareciam. Tinham quase sempre as mesmas histórias. Também se pareciam no cheiro: o perfume barato e enjoativo. As mocinhas, ainda adolescentes, tinham seios bonitos, erguidos, do tamanho de uma pêra. As demais já tinham perdido o frescor: sentavam-se de qualquer jeito, desconjuntadas, mostrando as pernas gordas, magras, com varizes, sem varizes, com feridas, com cicatrizes.

            Por que estavam ali no garimpo? Todas respondiam. Por dinheiro. Cultivavam a esperança de se enriquecer. Chegavam a sonhar com pepitas enormes. Enquanto esperavam pelos homens ávidos, ficavam ali na sala com olhos de reses, fechadas num curral apertado. Postavam-se diante dos espelhos, mas não se viam. Umas dormiam para passar o tempo, outras divagavam contando as manchas negras nas paredes. Alhures, ouvia-se um comentário evasivo:

            -- Que mormaço... Preciso de alguma bebida, sou capaz de dormir em pé... Arre, que vida...

            -- Não reclamem! -- corrigia Madame Teresa, atenta a qualquer depressão. -- O corpo é um objeto. Vocês têm que ganhar dinheiro com ele. Aproveitem enquanto são novas. Depois de velhas, não servirão nem pra canhão. Olhem pra mim: eu também já fui jovem e cobiçada. Hoje, mais pareço um bujão de gás...

Joselito anunciou, requebrando:

            -- O Pastor vem aí!

            Madame Teresa se levantou.

            -- Lembrem do que eu disse! O homem está cheio de rezas, decorou página por página da bíblia, mas não presta. Eu sei quando um homem não presta. Nunca me engano!

            Logo um homenzarrão entrou na casa. Era ruivo e tinha uma cabeça quadrada. Segurava o chapéu de feltro nas mãos.

            -- Boa-noite, princesas! Aqui está o seu príncipe!

            -- Só se for o príncipe das trevas... O Anjo negro -- respondeu Madame Teresa, sem se levantar.

            -- Que dia! O calor está de rachar. Já é noite e o mormaço ainda perdura. Ainda bem que vocês têm esses ventiladores gigantes. Até parece que estou para levantar voo. Fazem um barulhão danado, mas pelo menos joga vento. Abençoado este motor a diesel! Não vejo a hora de ter um lá na igreja...

            -- Se não se acha contente, dê o fora. Não preciso de lambedor de bíblia. Nenhuma alma por aqui quer ser salva. Estamos no inferno. Aqui é o inferno. Eu sei disso.

            -- Que é isso, Madame Teresa? Nem coloquei os pés e você já vem destratando... Devia respeitar mais um apóstolo do Senhor!

            -- Apóstolo do Senhor? Essa é boa! Só se for do Senhor de chifres. Daqueles com chifres bem grandes.

            O Pastor, olhando para Joselito, que estava atrás do balcão:

            -- Bom menino, por que não me serve uma dose de uísque?  Por acaso, também está bravo?

            Joselito começou a preparar a dose.

            -- O que há, princesas? Cadê os beijos?

            Dirigiu-se a Adelaide e beliscou o bumbum.

            -- Ai, que não gosto disso!

            -- Eu sei do que você gosta, espera aí. Joselito, traz um martine pra essa moça bonita.

            -- Assim, já me sinto melhor...

            -- Comigo, só fartura. Não é, Madame Teresa? Não sou miserável. Dinheiro foi feito pra gastar.

            -- Eu quero receber o que me deve, seu panaca! -- vociferou Madame Teresa, inquieta, com vontade de esganá-lo. -- Aqui não é lugar pra fazer caridade. Conversa não paga a conta.

            -- Eu sempre pago as contas, sua puta velha.

            Botou a mão no bolso e sacou um maço grande de notas, mostrando às mulheres, que se sentiram atiçadas.

            -- Assim que se fala, meu príncipe -- disse Adelaide, esfregando o corpo nas pernas grandes e arqueadas do pastor.

            Naquele começo de noite, os primeiros clientes iam chegando. Alguns passavam as primeiras horas se entretendo com as mulheres em conversas pegajosas, com beijocas e aperreações. Bebiam pouco, mostravam-se cautelosos. Quase sempre grosseiros e confiados. Garimpeiros eram grosseiros. Não podiam ser como Joselito, uma moça de fino trato.  Quando gastavam pouco, como se tivessem fechaduras nos bolsos, Madame Teresa sentia vontade de esganá-los. Detestava homens abusados e muchecas. Queria quebrar a cara deles para não aborrecer as suas meninas. Quando uma delas se enrabichava por homens assim, ela se enfurecia:

            -- Não seja besta, mulher.  Quem se apaixona, é trouxa. Estamos neste negócio por dinheiro. Não é por destino, nem por amor. Dinheiro dá poder. Se você não tem, ninguém te olha e nem te respeita. Sou muito bem tratada porque tenho dinheiro. Prefiro dinheiro a amor. Acabou o dinheiro, acabou o amor. Estamos neste barco só pelo prazer ao dinheiro. Sabe de uma coisa, sua boba: não existe outro prazer.

            -- Mas, Madame, você nunca se apaixonou? Sou de carne e osso, trepo com todo mundo, mas quero meu homem.

            -- Conversa fiada! Claro que me apaixonei. Quando nova. Conheci um homem que tinha muito nome na minha cidadezinha. Ele largou a mulher e filhos pra me assumir. Foi um boboca. Aquilo não era pra mim. Eu até que tentei. Aguentei o rojão por dez anos, mas nunca deixei de trabalhar na boate. Queria que eu largasse tudo. Não larguei. Nunca gostei de ser sustentada por homem nenhum na vida. Eu prezo a liberdade. Quando o amor dele naufragou, eu saí só com a roupa do corpo. Fui honesta. Ele tinha me dado as coisas por amor. Quando acabou, eu saí só com a roupa do corpo. Larguei tudo que tinha. Uma casa grande e linda, o sonho de qualquer mulher. Saí fora e fui cuidar da minha vida. Mas respeitei ele até o final. Detesto gente safada.

            -- Parece até um conto de fada...

            -- Ah, na época sim. Mas não fui criada pra ser madame. A gente viajava, fazia compras e toda semana eu ia no cabeleireiro. Uma mulher pode ser feia, mas qualquer mulher enfeitada fica bonita. Até poderia ter durado mais. Mas o imbecil... Peguei ele na nossa cama na cama da fazenda com uma menina de quinze anos. Filho de uma mãe! Disse que ia na fazenda pagar a peãozada e colher tangerinas. Por azar, eu precisei ir até lá pra dar uma notícia e quando cheguei os dois estavam no banho, aos abraços e beijos. Não fiz nada. Pra que, afinal? Dei as costas e saí de mansinho. Larguei tudo e disse pra ele: não se meta com a minha boate. Se fizer isso, juro por meus olhos, eu coloco fogo em tudo.Que homem imbecil. Ora, colher tangerinas! Ele foi colher duas tangerinas novas, isso sim!

            Depois de contar tudo isso, passeava os olhos pela sala, poltrona por poltrona, elevava a voz como se tivesse um ataque de fúria:

            -- Então, sua idiota, não se apaixone por homem algum! Apaixone por dinheiro, o vil metal. É por isso que estamos neste barco, entendeu?!   

            O Pastor já estava na terceira dose de uísque. Estava falante. As mulheres miravam o seu bolso esquerdo, onde guardara o maço de dinheiro. Desejavam, de alguma forma, saqueá-lo. Sua conversa enojava, mas o maço de cédulas que mostrara as atraía. Madame Teresa andava de um lado a outro naquele começo de noite. Aos poucos, a casa ia recebendo a clientela. Os risos e as cantadas não passavam de breves cochichos.

            -- A sexta-feira promete -- pensou Madame Teresa, sem perder de vista o famigerado Pastor.  

            Assim era o garimpo. Os finais de semana sempre rendiam bom dinheiro. Os garimpeiros recebiam de seus patrões e se dirigiam aos bares. Ufa, que ninguém era de ferro. Estavam moídos, precisavam de algum tipo de diversão. Depois do sol escaldante, na pá e na picareta, bateando, ou carregando sacos de cascalho, eles se sentiam merecedores de pequenas gratificações.

            Rapazes inexperientes vinham nas primeiras horas da noite. Eram tímidos, entravam tremendo, quase sem poder falar. O garimpo precisava de braços fortes. Do Norte, do Nordeste e alguns do Sul -- eles vinham em levas, todos atraídos pelo desejo de fazer fortuna rápida.

Então, Madame Teresa ordenava que as mulheres mais experientes os atendessem. Do contrário, não se sentiam bem enquanto não se achassem de novo na rua. Estranhavam o ar cheio de fumaça e o cheiro azedo das bebidas. Saíam do bordel com gosto de minhoca na boca. Não estavam acostumados com o ar pesado daquela casa cheia de pecados. Quando pisavam a rua, sorviam o ar como um boi abocanhando capim fresco. Por isso, ela ficava atenta aos rapazes. Eram bobocas. Não conheciam ainda os caminhos dos prazeres. Alguns se enrabichavam facilmente, queriam tirar a mulher daquele lugar, faziam promessas doces.

            -- Hoje, não me contento com uma. Quero duas! -- dizia o pastor, já na quarta dose de uísque. -- Miséria pouca é bobagem.

            -- Ah, meu bom Pastor, eu dou conta do recado. Por que deseja mais areia do que pode carregar em seu caminhão?

            -- Vá lá, benzinho! Tem dias que a gente precisa de mais, sem querer ofendê-la, é claro.

            -- Mas vou cobrar dobrado, já vou avisando. Não sou qualquer uma. Eu quero mais!

            -- Seja feita a vossa vontade, princesa. Não sou miserável. Quero duas mulheres. Trate de arranjar outra. Tem dias que a gente se sente dono do mundo, todo-poderoso, feito o Criador.

            -- Espere um pouco. Vou falar com as outras. Mas não vá se arrepender, porque te degolo. Quero o meu dinheiro.

            -- Está certo, princesa, está certo. Deixa eu escolher, então. Você pode me trazer um bagulho. Estou cheio de rampeiras com varizes estuporadas. Quero pernas lindas, sem varizes.

            Olhou demoradamente ao redor.

            -- Aquela lá! -- apontou com as mãos grandes como se condenasse alguém no meio do público.

            -- Aquela não! Não é de fazer essas coisas. Ela tem dono. Ache outra. Logo aquela... A Matildes não é flor que se cheire, vou avisando...

            -- Aqui ninguém é de ninguém. Eu quero aquela, está acabado. Eu escolho, eu estou pagando.

            Sem esperanças, ela deu o recado a Matildes, que olhou rispidamente a imensa figura do pastor. Que sujeito estúpido! Ele podia enganar muita gente, mas ela jamais. Que fosse àquele lugar! Mastigou milho no cocho e disse: “Não caí abaixo do chão. Só depois de morta!”

            O Pastor se enfureceu. Ele domava as almas. Não seria uma puta daquela que borraria seu poder. Ordenou que fosse novamente falar com ela. Não era de desistir ao primeiro toque de guerra.

            Novamente Matildes o mandou para os quintos do inferno. Que fosse cuidar de sua alma, mais suja do que pau de galinheiro. Ela não era objeto. Que enfiasse as rezas sem valia alguma naquele lugar.

            O Pastor bebia mais uma dose de uísque e se embrabecia. Estava vermelho, grossas veias no pescoço e sobre a testa quadrada. Uma puta sem eira e nem beira fazendo desfeita de seu grande poder. Procurou Madame Teresa e não a encontrou. Não deixaria a desfeita evaporar no ar esfumaçado. Aquela putinha precisava de uma boa e severa lição.

            Quando Doca se embarafustou no recinto, já havia boa clientela. O comprador de pepitas, ardente e barrigudo, já se achava planando, rindo alto e beliscando as nádegas das mulheres. Ria, sacudindo a grande barriga arredondando-lhe a caixa torácica. O vendedor de fazenda e armarinhos abraçava a mulher baixa e gorda como se medisse fazenda a metro. Os donos das minas bebericavam, a cada momento tocando disfarçadamente a corrente do relógio, os anéis e a carteira. O farmacêutico prático, o “doutor” que mal sabia ler, conservava-se quieto e taciturno, curvado e sem graça com as mulheres.

Ah, e os garimpeiros... Esses, sim, bebiam e farreavam, mas não podiam gastar com as mulheres, porque já deviam no armazém, na farmácia, aos amigos, e amassavam nos bolsos umas notas de pouco valor, separadas e reservadas para a diversão noturna, para dois ou três litros de cachaça. Bem, quem não tem cão, caça com gato. Todos são filhos de Deus e merecem dançar, rir, sonhar com lindas garotas, porque sempre há o outro dia, e garimpar é serviço para homem marrudo, taludo, que tem a febre do ouro nos olhos.

            À meia-noite, a casa ardia febrilmente. Atiçados por uma música pejada de paixões e traições, homens sem rumo, mulheres desatinadas, todos queimando na fogueira das paixões, homens e mulheres estavam agarrados e queimavam a boca, com beijos molhados, fedendo a álcool e a cigarros baratos.

            Joselito se desdobrava de um lado a outro, requebrando, recebendo propostas indecorosas de garimpeiros ousados.

            -- Depois, eu te espero no meu barraco! -- diziam os homens já domados pelo álcool e pelo ar empestado.

            Ele requebrava mais e mais, e mais, como uma cobra no meio do areial ao sol quente do meio-dia.

            -- Só por dinheiro! -- respondia, mostrando sensualmente a língua nos cantos da boca úmida pintada de batom.

            -- Ora se vou pagar por uma bicha! Essa é boa! Pago por uma boa mulher, mas por um travesti... Jamais!

            Joselito ficava enfurecido.

            -- Pois, então, tire o cavalo da chuva. Eu sei me valorizar. Não estou pedindo esmola! Vá procurar seu homem, babaca!

            Os outros garimpeiros riam. Joselito requebrava mais ainda, mostrando molejo nos quadris.

            -- Isto que é viver! -- dizia um velho garimpeiro com os cotovelos em cima da mesa, olhos miúdos e rápidos, pés inquietos, doidos por uma dança com uma mulher daquelas. -- É o que se leva dessa vida!

            Na testa magra um feixe de veias saltavam afogueadas. Com certeza, lembrava do tempo de moço, quando tinha força e possuía boas mulheres. Estava ansioso por deitar-se com uma delas. Mas não tinha dinheiro. Chegara à velhice só com a sombra e ela era torta.

            Entusiasmado, saltitante, perguntava a um garimpeiro:

            -- Será que posso ir com aquela ali?...

            -- Mas, meu velho, todas que estão neste terreiro estão para isso... Ou espera por uma santa?

            -- Aquela lá, que está perto do balcão?... É bonita... Gosto demais do jeito dela. Ela me traz boas lembranças...

            -- Não se vexe. Vá firme. Ela também é da noite. Está esperando por um convite. Aproveite que ela está folgando neste momento.

            -- Mas...

            Uma morena encorpada atravessou o salão. Jogava os cabelos compridos e encaracolados de lado, sensualmente.

            -- E com essa aí, também?

            -- Olha, tem tantas... Qual delas?

            -- A morena que vai...

            -- Também, ora essa. Todas aqui são para bom uso e aproveito.

            -- Qual é o nome dela?

            -- Por que quer saber o nome?...

            -- Bem, fica mais fácil começar uma conversa...

            -- Caramba! Essas mulheres não estão interessadas em conversa, mas em ouro, meu velho. Pepitas de ouro, entendeu?

            O velhote estava intimidado.

            -- Mas... sabe, o nome ajuda. Sexo por sexo, eu não consigo. Preciso de regar tudo com boa conversa...

            -- Está certo. Ela se chama Matildes.

            -- Ah, nome bonito...

            O Pastor, já visivelmente embriagado, acercou-se de Matildes, cravando suas grandes mãos nos braços dela, quase a imobilizando. Ela se voltou e deparou com o paredão na sua frente. Quis sair das garras, mas os dedos fortes a apertavam como se ela fosse minhoca.

            -- Então, o que pensa que é? Por acaso, é mais do que as outras? Chegou há pouco e já quer sentar na janela do ônibus?

            Saía da boca do Pastor um bafo azedo, como se em seu estômago tivesse rebentado uma dúzia de ovos chocos.

            -- Me largue! Ou chamo Madame Teresa...

            -- Pode chamar. Duvido que ela faça alguma coisa.

            -- Me largue, Satanás!

            -- Tem o rei na barriga, sua puta!

            Ouviu-se a voz de Madame Teresa às suas costas.

            -- O que está havendo, Pastor?

            -- Quero essa mulher hoje. Ela sentirá o peso do meu bastão. Mas ela se faz de folgada. Está escolhendo galo!

            -- Largue a menina. Ela está com outro neste momento. Pegue outra. Veja, aquelas sentadas no divã.

            -- Que se dane! Eu quero esta -- e não largava os braços de Matildes. -- Essas mulheres estão aqui para o que der e vier.

            -- Calma, Pastor, eu já disse, ela está acompanhada. Escolha outra. Se quer encrenca, terá encrenca.

            A voz de um desconhecido ecoou firme junto aos três.

            -- Deixe a mulher em paz. Madame Teresa já disse o que tinha que dizer. Por acaso, é surdo?

            Voltaram-se. Doca se colocou na frente, mirando frontalmente a cara quadrada do pastor. Mediram-se as forças. Depois do Pastor analisar o corpo de Doca, os braços retesados de nervos, largou os braços de Matildes. Onde colocara os dedos grandes e grossos, ficaram as marcas vermelhas.

            -- Espero não encontrá-lo por aí -- soletrou o Pastor, sem tirar os olhos avermelhados de Doca, depois se retirando vagarosamente, como se fizesse uma enorme força.

            -- Não me escondo de nada -- arrematou Doca, também o mirando e assistindo sua retirada lentamente.

            -- Bebe como um cavalo e quer respeito! -- vociferou Madame Teresa, aliviada, dando o incidente por encerrado. -- Preciso cuidar desses marmanjos como se fossem meninos...

            Neste instante, porém, Matildes agarrou uma garrafa de cerveja e, sem ninguém esperar, agrediu a cabeça quadrada do Pastor, que bambeou e tombou no assoalho rústico como um saco de areia, no meio de estilhaços de vidro. Todos quedaram assustados.

            -- Sua louca! -- berrou Madame Teresa. -- O que tem nessa cabeça? Por acaso, esterco de porco?!

            Doca a segurou e, com força, a arrastou porta fora, para respirar a brisa da noite morna. Pontilhavam as estrelas no céu. Alguns homens bêbados mijavam por detrás das árvores; outros, sem escrúpulos, vomitavam. Uma cachorra no cio era perseguida por vários viralatas.

            O Pastor, esborrachado no assoalho, tentava levantar-se, mas se sentia zonzo, e a pequena multidão ao redor não o deixava respirar direito. Passou a grande mão na cabeça e o sangue escorregou por seus dedos grossos e grandes. O que tinha acontecido?

            -- Vamos, seus molengas, ajudem o homem a se levantar! -- ordenou Madame Teresa, aflita. -- E tragam ele na outra sala. O que estão esperando?

            Dois garimpeiros levantaram o Pastor do chão. Pesava como porco gordo. Aos poucos, conseguiram depositá-lo num banco de madeira na outra sala, onde Madame Teresa, já um pedaço de pano nas mãos, começou a enxugar o sangue que escorria pelo cabelo e salpicava a testa larga com alguns filetes ziguezagueando.

            -- Joselito! Joselito! Coloque música pra animar a moçada! Afinal, ninguém está num velório...

            O bolero invadiu o ar empestado:

 

            Hoje eu te vi

            Toda marcada pela vida.

            Triste, abatida

            Caminhando devagar.

 

            Os casais dançavam ao compasso e descompasso com movimentos de animais de duas cabeças. Lábios polpudos e cansados beijavam com a língua como se grudassem selos. Os homens se deliciavam com o peso dos seios mornos e dos ventres arredondados.

            De repente, quando tudo era lascívia e despudor,  o grito de mulher carregado de horror:

            -- Socooorrroooooo!!! Ai, meu Deus!.... Meus ovários.... Aí, ele me esfaqueou!!! Socoooorrroooooooo!!!!!, pelo amoooorrrr de Deeeeuuussss.....

            Girava no salão como galinha degolada, segurando intestinos e ovários, enquanto o sangue jorrava misturado com fezes.

            Homens e mulheres corriam para ver. A mulher caíra de joelhos e se sacudia como galinha degolada abruptamente, revirando os olhos e deixando o branco dos glóbulos aparecer como bolas de gude. Estampara-se o medo nas faces, com a língua de fora, gritando, gritando, tanto era a dor. A dentadura postiça saltou da boca e rolou pelo assoalho. Os espectadores ficaram confusos: não sabiam se riam ou se recolhiam a dentadura. Os mais bêbados não aguentaram e riam abertamente, bocas abrindo como sanfonas.

            Madame Teresa abandonou o Pastor e veio correndo, desesperada, feito galinha choca atrás de pintinhos.

            -- Mas que desgraça é essa?!

            Ninguém sabia. Só diziam:

            -- Ela está esfaqueada! Olha a barrigada de fora!

            -- Quem fez isso? Logo na minha casa! Tão distinta, tão ordeira... Ai, que o diabo está solto nesta noite sem fim...

            O agressor já não se encontrava por ali. Alguém ouvira passos largos pela porta da frente e uma correria na rua estreita e tortuosa. Já ganhara a rua em poucos minutos, deixando para trás a confusão.

            -- Socoorroooo.... Meus.... ovários.....

            A voz morria aos poucos e os olhos reviravam, deixando o branco dos glóbulos à mostra, igual a certos cegos.

            -- Me ajudem, seus canalhas! O que estão esperando?

            Madame Teresa agarrou-a por trás, debaixo dos braços, quando ela acabava de dar o último sinal de vida, com a ajuda de dois homens, que a seguraram pelas pernas, um agarrado em cada perna gorda e cheia de varizes, e a arrastaram para os fundos, num quartinho de tábuas sem matajuntas, onde havia uma pilha de sacos de carvão. O corpo se ajeitou entre pedaços de madeira e sacos de carvão como se fizesse parte do mesmo universo.

            -- Bela porcaria! Como os homens são bestas! Sentir ciúmes por uma mal-acabada assim...

            Madame Teresa, suando, quando voltou à sala e viu o ar de velório e o diz-que-diz desenfreado, berrou a todo pulmão:

            -- Mas que diabos! Quem mandou parar a música?! Isto aqui não é velório! Não houve nada, tudo está resolvido...

            Entretanto, todos olhavam-na assustados.

            -- Joselito, oh Joselito! Por que parou a música?

            Trêmulo, sem balançar o quadril, Joselito foi até o aparelho de som e colocou a música que estava à disposição, sem escolha alguma, que todas as músicas ali falavam de amores perdidos e traições.

            Aos poucos, homens e mulheres dançavam e se apertavam, e lábios carnudos e sensuais, cheirando a álcool e a cigarro barato, voltavam a se grudar, enquanto as línguas pregavamos selos. Os bêbados já não viam mais nada. A empregada -- gorda e balofa --, com uma vassoura e panos molhados, enxugava o assoalho, limpando as manchas de sangue e respingos de fezes.

            Quando Madame Teresa pressentiu que a situação desastrosa estava sob controle,  foi apressadamente ao encontro do Pastor, que se havia postado na frente da mesa de madeira, no quarto dos fundos, com a testa manchada de sangue quase seco, recitando texto da bíblia:

            -- “Quão fraco é o teu coração, diz o Senhor Deus, fazendo tu todas estas coisas, só própria de meretriz descarada. Edificando tu o teu prostíbulo de culto à entrada de cada rua e os teus elevados altares em cada praça, não foste sequer como a meretriz, pois desprezaste a paga....”

            A voz era pastosa e o tom era acusativo, tanto que ele esticava a mão direita, na direção de um público imaginário, condenando. Ao ver Madame Teresa, arriou o braço e se sentou.

            -- Por que não me trazem uísque? Eu já pedi, já implorei, clamei pelo Senhor, e ninguém me atende. Eu quero mais um uísque, é desse remédio que eu preciso. De tanto carregar os pecados dos fiéis, me acho cansado...

            -- Ora, seu pilantra! Primeiro, me pague! Se não pagar, sairá daqui, hoje, deveras esfolado vivo.

            -- Eu pago, eu pago, veja, tenho muito dinheiro -- e, com dificuldade, tirou do bolso o maço de cédulas. -- Sou rico, não vivo de esmola. Quero mais uísque, minha boca está seca!

            -- Primeiro, a grana.

            -- Jamais! -- voltou a colocar o maço no bolso, mostrando certa lentidão e embaraço.

            -- Está bem, mais um só e a grana!

            Madame Teresa saiu para buscar a bebida. Quando voltou, ele voltara a declamar o texto bíblico:

            -- “... foste como a mulher adúltera, que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos. A todas as meretrizes se dá a paga, mas tu dás presentes a todos os teus amantes; e o que fazes para que venham a ti de todas as partes adulterar contigo.”

            Parou a fala tortuosa. Rapidamente se apropriou do uísque e bebeu sofregamente.

            -- Isto que é vida! Mais um. Ainda estou com sede.

            -- Chega! Quero o dinheiro. Não me aporrinhe. A conta de ontem e a de hoje.  Aqui não é casa de caridade!

            -- Rá-rá-rááá! Casa de caridade, esta é boa -- quando ria, babava no canto esquerdo da boca. -- Sabe de uma coisa, Madame: eu quero aquela mulher! Do contrário, nunca verá a cor da grana. Entendeu? Ou quer que eu repita mais alto? E trate de me trazer um litro de uísque. Você está colocando água no copo. Está aguado igual mijo de cavalo. Rá--rá-rááá! Casa de caridade!

            -- Seu porco! Está babando como se tivesse aftosa!

            -- E daíííí? Sou baboso, sou gooossstoooso!

            -- Descarado e imundo!

            -- Venha aqui, sua meretriz velha! Veja como sou gooossstooooso... Exprimeeentaaa meu cajaaadooooo!

            Madame Teresa resolveu atendê-lo. Um litro de uísque, por que não? O cliente manda. Bêbado, ela sacaria o maço de cédulas do bolso. E tudo ficaria elas por elas. Ao retornar ao salão, Joselito veio dizer-lhe que Matildes não retornara. Fez que não ouviu. Já tinha muitos problemas para uma noite.

            -- Aquela bestalhona! -- enfezou-se ao lembrar da morta socada no meio dos sacos de carvão. -- Mais despesas! Mais despesas!

            De manhã, rapidamente, enrolaria o cadáver numa rede e pedira ao coveiro para levá-la, sem preces, sem compaixão, enquanto as garotas dormiam.

            Ao voltar, novamente o Pastor recitava passagens bíblicas com a voz pastosa, de pé na ponta da mesa.

            --“Contigo, nas tuas prostituições, sucede o contrário do que se dá com outras mulheres, pois não te procuram para prostituição, porque, dando tu a paga e a ti não sendo dada, fazes o contrário...”

            -- Pare com essas ofensas. Está aqui o litro. Beba à vontade.

            -- Ahhhh, booooaaa meninaaaa...

            Sentou-se do outro lado da mesa e esperou que ele tomasse a metade do litro. Dizia besteiras e declamava textos sagrados. De repente, tombou a cabeçorra quadrada sobre a mesa, dormindo. Ela se aproximou por trás e, afoitamente, enfiou a mão no bolso de suas calças. Ele se mexeu, acordando por uns segundos, fez menção de tirar rispidamente a sua mão do bolso, mas, em seguida, voltou a dormir. Madame Teresa sacou o maço de cédulas. Pegou a maior parte, muito mais do que ele devia, devolvendo no bolso algumas cédulas.

            Dirigiu-se ao salão. Àquelas horas, havia poucos clientes.

            -- Joselito, chame dois garimpeiros conhecidos.

            Carregaram o corpão mole do Pastor porta afora e o depositaram na rua tortuosa. Acordou com sol alto, de borco, quando cachorros o cheiravam. Pouco se lembrava do que tinha acontecido. Estranhou o corte no couro cabeludo e o cheiro de sangue ressecado.