A Problemática do Mal em O Sol dos Trópicos de David Gonçalves: uma abordagem ética e filosófica .¹

Maria Suely de Oliveira Lopes²

                      O objetivo deste estudo é de refletir sobre o mal na narrativa simbólica O Sol dos trópicos de David Gonçalves numa perspectiva filosófica e ética. Para sustentação teórica utilizaremos o pensamento de Paul Ricoeur , um dos mais distintos filósofos do seu tempo e um dos maiores e mais brilhantes pensadores da segunda metade do séc. XX. O seu pensamento antropológico e ético é construído a partir de uma ontologia e estrutura-se em torno da problemática do mal que se acha sempre desafiante para o pensamento filosófico.

Palavras-chave: Hermenêutica. Epistemologia. Ética. Mal. 

                   A obra O Sol nos Trópicos (2010) de David Gonçalves relata a história de um padre que vivência um grande conflito moral. Seus desejos carnais, suas angústias, aventuras e dilaceramentos morais a que disto decorrem além de seu não bom relacionamento com o seu superior o Bispo, permeiam o espaço de sua narrativa, aparentemente simples pela linguagem, ressignificada através de semas que recorrem às questões sociais dos Bóias Frias em primeiro momento , mas  o fator diferencial entre as semelhanças dos fatos narrados que de fato se destaca é o drama existencial de um homem que se sente encurralado pelo mal,dado importante na obra,que norteia toda a trama e que constitui o núcleo em volta do qual se vai  esboçar a sua antropologia.

                   Com efeito, só é possível fazer uma abordagem do projeto antropológico e ético através da integração do problema do mal e do conflito entre voluntário e involuntário. A questão do mal consiste ser um desafio para o pensamento filosófico. Desafio, na medida em que tal questão permite ultrapassar a simples lógica da racionalidade por meio da inserção de diversos níveis de discurso, incluindo aqueles que, habitualmente, são considerados, em princípio, como não racionais. Além disso, como sugere Ricoeur que o problema do mal é uma questão sempre em aberto pela sua insolubilidade pela 

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1-Trabalho apresentado à Disciplina Poética do Imaginário ministrado pelo Profº Doutor Sebastien Joachin.

2-Aluna Doutoranda do Curso de Pós-Graduação em Letras pela UFPE

via meramente racional. Dessa forma, há múltiplas respostas relativas à problemática do mal, que remetem sempre para a estrutura básica da realidade humana

 Na obra em estudo, de forma efetiva, o homem apresenta-se nas suas variadas relações com o mundo, consigo mesmo e com os outros. Isto constitui o centro de toda a reflexão. E nessa relação se depara com o conhecimento global que o ser humano possa ter de si mesmo é o fundamento da compreensão dos diferentes planos da ação humana e, ao mesmo tempo, conduz-nos à problemática de saber em que medida essa ação pode ser livre e responsável.

                   A questão apontada acima é sem dúvida a principal preocupação de Ricoeur como aponta Pellauer(?). Por isso, a sua reflexão é um esforço permanente para abarcar as várias dimensões do ser humano na sua totalidade, sem nunca perder de vista a perspectiva concreta: a sua inserção nas circunstâncias da vida e, e a não realização do seu ser à margem das condições históricas e culturais. O percurso do pensamento de Ricoeur é, pois, um esforço permanente para introduzir no âmbito do pensamento todos os aspectos que possam contribuir para a compreensão global do ser humano, enquanto ser problemático, em confronto consigo mesmo, com a existência e com a transcendência.

                  Em O Sol dos Trópicos, acerca do que defende Ricoeur ,o que se observa é a temática do mal que se insere de forma a dilacerar o ser humano.À propósito citamos o personagem Padre Deuteronômio  que passa a viver um dilema existencial pelo fato de ter engravidado uma jovem moça de nome Eleonora,de ter sugerido o aborto a referida jovem e de ter cometido um assassinato.Seu drama assemelha-se ao do personagem Amaro da Obra O Crime de Padre Amaro de Eça de Queiroz. Pois o ponto convergente entre uma e outra é a presença do mal com algo destruidor da natureza humana. De acordo com Deleuze (2006), o mal é apontado nessa relação como sendo a repetição compexa difrentemente da pura, ainda que os dois conceitos tendam a reunir-se e a confundir-se. A diferença, conforme o pensamento de Deleuze (2006,p.10) à divergência e ao descentramento perpétuos da diferença correspondem rigorosamente um deslocamento e um disfarce na repetição.   O conceito de repetição tal que as repetições físicas, mecânicas ou nuas (repetição do mesmo) encontrariam sua razão nas estruturas mais profundas de uma repetição oculta, em que se disfarça e se desloca um diferencial.

            Inserimos nessa análise a experiência do voluntário e involuntário. O voluntário e o involuntário na opinião o Ricoeur são entendidos na interpretação de Pellauer (?) como recíprocos por que de outro modo nenhum nem o outro fenômeno é realmente inteligível. Só compreendemos a natureza humana mediante ambos, do contrário não teríamos um conhecimento formulado dos seres em geral. A obra em destaque coloca Deuteronômio nessa encruzilhada.Seus atos podem ser enquadrados nessa lógica filosófica da reciprocidade.Nenhuma falha sua fora cometida voluntariamente.Pois para isso deveríamos considerar essa categoria isoladamente;mas o que afirmamos aqui,é que o mal acontece obedecendo essa lógica:o voluntário só pode revelar-se por meio do ou em relação ao involuntário.Vejamos o excerto  abaixo:

‘’É agora ou nunca!’’_disseram os diabinhos. ‘’E agora!”_repeti. Voei em cima do frei com a faca brilhosa de matar cabritos. Furei várias vezes para pelas costas. Ele saiu caminhando frouxo, o sangue esguichando vermelho, borrado o chão da sacristia. (GONÇALVES,2010,p.245)

                 Como podemos observar Deuteronômio não tem conhecimento direto ou imediato de si mesmo. Foi impulsionado a matar o Frei Paterno. De acordo com Pillaueur interpretando Ricoeur’’conhecemos a nós mesmos apenas indiretamente, em termos do mundo objetivo e de nossas ações nele’’   (  ?  ).Dessa forma destacamos o mal provocado com algo que já está inscrito no  pensamento da natureza humana, ainda que não tenhamos a plena consciência desse conhecimento que nos assedia. Deuteronômio comete falhas porque já faz parte de sua condição humana e se deixa seduzir pelo mal (pensa ele) em detrimento de sua culpa. O mal já reina anteriormente ao homem.Ricoeur (Conflito das Interpretações) nos diz que entramos no mundo da inculpação racional, a do juiz e a da consciência inescrupulosa.

               Na obra O Sol dos Trópicos questionamos a todo instante uma filosofia do sujeito, utlizando-se como suporte epistemológico sobretudo a Filosofia da Vontade. Todavia, o problema do mistério escapa às exposições husserlianas, porque todas as problemáticas por ele abordadas se desenvolvem de forma puramente ininteligível. Neste sentido, a fenomenologia de Ricoeur, utilizada na Filosofia da Vontade, não pode ser caracterizada como uma fenomenologia pura, no sentido de Husserl, mas como uma fenomenologia da existência. É nessa perspectiva que a questão do mal se insere na obra em estudo. Deuteronômio representa a própria tragicidade da existência humana. O mal o obrigou a encontrar outros modos de relação que se igualassem a sua culpa  exigindo um compromisso com a ação efetiva. Destacamos o trecho abaixo que mostra Deuteronômio refletindo sobre a vida e sobre seus atos: 

    Não passa de um trapo velho usado para limpar o mundo. Por que a vida não lhe abandona e acaba de vez com aquela farsa? Por que não o empurram para sempre à fogueira pra crepitar?(...) Venham todos. Aproveitem a carne é fresca. Já estou morto, furem os meus olhos, arranquem as minhas tripas, dividam o meu corpo. Venham! (GONÇALVES, 2010, p.293)  

                    É interessante lembrar que projeto antropológico de Ricoeur começa com a Filosofia da Vontade.  A finalidade é, com efeito, a análise e descrição da ação voluntária em si mesma obedecendo a uma exigência de clareza racional de modo a que as estruturas do voluntário e do involuntário possam surgir em toda a sua pureza nos três momentos da volição: decisão, ação e consentimento.

                 O que Ricoeur defende não se trata, então, de descrever o ser humano na sua existencialidade, mas apenas de fazer emergir as possibilidades estruturais da vontade que estão na base de toda a ação e de toda a faticidade, mostrando, ao mesmo tempo, a relação dialética entre elas. De fato, na base das análises eidéticas da reciprocidade entre o voluntário e o involuntário existe uma dialética da atividade e da passividade, de afirmação e de negação e consequentemente da culpa e da confissão que os dinamiza. No caso especifico de O Sol dos Trópicos , o fato de Deuteronômio praticar o mal poderia muito bem ser um simples acidente da vontade. Neste ponto do seu percurso, Ricoeur põe em marcha uma nova proposta, reclamada, aliás, pela presença deste ‘corpo estranho’ na eidética do homem; mas também pelo fato de que a culpa não se manifesta por uma linguagem direta – como acontece no caso dos aspectos revelados pela eidética -, mas através de uma linguagem indireta, metafórica ou simbólica. Por isso, não é possível uma fenomenologia direta da problemática do mal; pelo contrário, esta última exige uma descrição empírica dos indícios do mal e uma hermenêutica da linguagem simbólica através da qual se pode esclarecer o percurso que vai da inocência à culpa.

O certo é que na obra O Sol dos Trópicos o mal é cometido, mas também é sofrido, sentido. Ainda que o ser humano não esteja na origem do mal, a verdade é que é quem o pratica; o mal se manifesta nos seus atos existenciais e, por isso mesmo, o mal é obra da sua liberdade; confessá-lo implica assumir-se como sujeito ou como objeto do mal; sendo assim, a confissão do mal é um pressuposto fundamental da consciência da liberdade. O espaço de manifestação do mal só aparece quando o reconhecemos, quando o aceitamos por decisão deliberada. Considerar o mal do ponto de vista do mal cometido e da sua confissão significa, pois, declarar a liberdade e responsabilidade humanas e, ao mesmo tempo, reconhecer que está nas mãos do homem a possibilidade de evitá-lo. Ricoeur afirma a este propósito:

             Afirmar a liberdade é assumir em si a origem do mal. Com esta proposição estabeleço um laço tão estreito entre mal e liberdade que estes dois termos se implicam mutuamente; o mal tem o significado de mal porque é a obra de uma liberdade. http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a10/tavares01.pdf  
 

                  A decisão de compreender o mal através do homem e sua liberdade é em si mesmo um movimento livre de um ser que toma o mal sobre si. Do mesmo modo essa decisão consiste ser a declaração de uma liberdade que reconhece sua responsabilidade, que confessa considerar o mal como mal cometido, e que confessar estar em suas mãos à possibilidade de não fazê-lo. Logo, a liberdade não é fonte originária do mal.

               Portanto, a mal sempre afeta existência humana, seja o ser humano tomado ou como objeto e, por isso mesmo, deve haver um meio através do qual se possa exprimir o mal cometido ou sofrido. Na interpretação de Ricoeur é a confissão, que, através de uma linguagem simbólica, – por vezes ocultadora e outras desveladora – passa a ser o meio pelo qual a vontade exprime o pecado, a culpabilidade e o sofrimento. Sem a confissão, as emoções permaneceriam encerradas no interior do homem, impedindo a tomada de consciência de si. É o que ocorre na obra em questão, pois o personagem principal é tomado por um profundo arrependimento, após ter cometidos atos impuros; ele se julga culpado vivenciando uma espécie de martírio podendo ser entendido como uma simbólica da catarse. Pela confissão o homem é palavra até na experiência de seu absurdo, do seu sofrimento, do seu desespero.

                 Outro aspecto relevante a essa temática do mal na obra questionada e o ato de decidir e o movimento voluntário. O que os separa não é um intervalo temporal, mas conceitual (Pellauer:Compreender Ricoeur,?).O que decidimos não deixa de ser um projeto,embora tal projeto precise ser colocado á prova de ser efetivamente executado ou saber se pode sê-lo. Nesse sentido decidir é uma capacidade que desempenha papel preponderante pelas personagens de O Sol dos Trópicos, tanto da parte de Deuteronômio em relação às suas falhas, quanto da parte de Eleonora, quando tem que decidir se comete o aborto ou não. Vejamos o fragmento abaixo: 

‘’Querida Eleonora: Tudo entre nós está acabado. Resolvi seguir o meu destino. Serei sem dúvida,  um padre.Me esqueça.Apague o que aconteceu entre nós.Só me dedicarei a Deus e a mais ninguém.Tudo está acabado.Escolhi o meu destino.Vou cumpri-lo.Fiz o possível para não cair em tentação .Mas cai.Agora estou buscando o meu perdão.Não o culpo.Fui fraco.Não resisti e cai em pecados.Acredito em Deus e tenho certeza que tudo terminará bem.Logo você me esquecerá.Há muitos jovens.O amor reina em todos os corações.Tão logo esqueça de mim,apaixonar-se á por outro e a felicidade reinará em seu coração aflito.(...)Quero guardá-la como uma doce lembrança.Os dias que passamos juntos foram os mais felizes .Até hoje, pelo menos. E não acredito que terei outros. Perdoe-me. Sigo o meu caminho. Seu e para sempre, Deuteronômio. P.S._Sugiro que faça o aborto, caso esteja grávida. Assim não haverá nenhuma vergonha futura’’. (GONÇALVES, 2010, p.194)  

                 Logo, pelo que foi exposto acima, o que torna voluntária uma ação e caracteriza qualquer decisão é que, conforme Ricoeur (  ) ela inclui uma intenção que poderia ser dita .O que está em jogo é que o projeto pode não ser levado  a efeito.Assim uma decisão pode ser entendida tanto como um pensamento (do que está por ser feito) quanto um julgamento (de fazê-lo).Portanto , uma decisão é como um acontecimento, no sentido de que se resume em tomar uma posição,que é, na verdade, um ato pessoal.Lembramos aqui o caso específico de Eleonora que resolve ter o filho, mas acabará cometendo  o suicídio. De outra forma, a decisão projeta um futuro, pois se caracteriza por certa expectativa. Não tanto do ainda por vir quanto o futuro perfeito, do que terá acontecido. Dessa forma, o futuro é uma condição da ação, ainda que  nossa tentativa de descrever o voluntário corte-o em fatias  de momentos atemporais diversos.

                   Tudo isso nos leva a crer que uma decisão é uma capacidade. A nossa experiência vivida mais básica, se resume no argumento do que ‘’ eu posso’’. Essa maneira de falar conecta um aspecto reflexivo em toda decisão, como ‘’ eu me resolvo a fazer algo’’. Essa fenomenologia da decisão  remete a questão da motivação que é outro ponto que se discute na obra O Sol dos Trópicos.

                   Sobre a motivação, não há decisões sem motivos. A questão óbvia é se os motivos são causas que podem ser conhecidas  e entendidas antes dos efeitos. Mas o mesmo não vale para os motivos. De outra forma, os motivos só são compreendidos e fazem sentidos em relação a uma decisão. Não podemos nem começar a falar de um motivo separado de uma de uma decisão e qualquer decisão torna possíveis sobre os motivos possíveis. Aqui a relação é recíproca. Como diz Ricoeur(?) um motivo ‘’ determina a vontade somente enquanto a vontade  determina a si mesma.Logo os motivos operam mais no nível do sentido que das causas naturais. Eles fornecem a base para as decisões, uma maneira de justificá-las, de legitimá-las.

                  Um outro aspecto da fenomenologia dos motivos envolve a sua relação de valores.Como Diz Pellauer:

Há  um sentido implícito de avaliação em todo o motivo.Uma conclusão que Ricoeur ira aqui é que os valores  se nos afiguram primeiro como possíveis motivos para as decisões. O que sugere que há  sempre uma dimensão ética implícita  na ação humana ou a limitá-la.( ?)

                    Nesse contexto, há sempre um momento receptivo em toda ação voluntária, algo que muitas vezes exprimimos por metáforas: para o qual nos voltamos, nos abrimos  ou fechamos, a que aderimos ou que adotamos.

                  Em suma, a fenomenologia da vontade mostra-nos que não se pode compreender o voluntário sem o involuntário na medida em que este está na base daquele, seja como poder constituído, seja como limite necessário a ação.  A fenomenologia existencial chama atenção para a reciprocidade para a teoria do voluntário e involuntário.

                  Se é verdadeiro que, por um lado, o homem falível nos mostra a desproporção que está na base do ser humano, ao fundamentar a possibilidade  do mal, permanece, a este nível, sérias dúvidas sobre o salto efetivo,fático em direção ao mal. O enigma da culpa reside   no abismo que  se estabelece entre a possibilidade do mal e a sua realidade efetiva.

                O certo é que na obra em análise O Sol dos Trópicos  finitude e  culpabilidade vão abordar a  situação paradoxal do ser humano,situado entre o mal que ele mesmo introduz no mundo, e o mal com já existente antes.

               Nessa abordagem o problema do mal passa a residir entre um campo ético ( o mal com uma realidade que é possível em função do ser humano e que,por isso, aponta para a sua responsabilidade) e um campo trágico( o mal como algo ‘’já aí’’,previamente dado,inevitável). Este último campo implica a ausência de responsabilidade humana, no que diz respeito a sua origem,mas não a sua culpa.

                O mal está aí como um desafio para a humanidade. E neste sentido é impossível eliminá-lo. Ele é constitutivo do ser humano no mundo e na história. O que fica dito diante da leitura que fizemos da obra O Sol dos Trópicos é que viajamos no mundo da interpretação e do sentido buscando justificar a lógica da simbólica do mal no agir humano.                 
                                                      

    Referências bibliográficas  
 

O Conflito das Interpretações. Trad. M.F.Sá Correia. Porto-Portugal:Editora Rés,1988 

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Tradução d Luis Orlandi,Roberto Machado.-Rio de Janeiro.:Graal,1988,1ª Edição,2ª edição, 2006. 
 

GONÇALVES, David. O Sol dos Trópicos. Joinville, Sucesso Pocket,2010. 
 

PELLAUER, David.Compreender Ricoeur.Editora vozes.(incompleta) 
 

Tavares, M. (2006). Fundamentos metodológicos do pensamento antropológico e ético de Paul Ricoeur: o problema do mal. Memorandum, 10, 136-146. Retiradoem22/o5/2010, do World Wide Web http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a10/tavares01.pdf 136