O sol dos trópicos, um romance singular - José Fernandes

             A arte se compõe de segredos que a própria arte desconhece. Basta que apareça um artista capaz de transformar pedra em seres simbólicos; tinta, em imagens que falam aos olhos de quem as contempla; história, em discurso, linguagem, revelação do humano do homem, como se pronunciasse de novo o faça-se inicial, para que ela encante pelo mistério e pela magia da palavra. O sol dos trópicos, do jandaio-joinvilense David Gonçalves, em sua terceira edição, é um exemplo de depuração da linguagem, de elaboração da estrutura narrativa, de trabalho insano em busca da perfeição formal, de composição de uma trama em que se engastam personagens de várias estaturas sociais.

            Se no início do século XX houve romances marcantes, em que a questão social, notadamente do nordeste, fora explorada pela ficção e pela história, segundo os princípios positivistas defendidos por Taine, como o vemos, sobretudo, em Os sertões, no modernismo, o social vai ser a pedra de toque sobre que muitos romancistas erigirão suas obras, como se vê em Vidas secas, em que o ficcionista abandona a visão do parapeito da fazenda, observada em Lins do Rego, e coloca os olhos das personagens a partir do terreiro, da perspectiva de quem sofre na pele os desníveis da sociedade. Se estes romances marcaram uma nova fase na ficção brasileira, com O sol dos trópicos, notadamente nesta edição, David Gonçalves fecha o século com uma narrativa múltipla em que a maioria dos problemas sociais é abordada sob a ótica da simplicidade, como o fizeram Graciliano Ramos, Bernardo Élis e Lúcio Cardoso, em Maleita.

            A diferença entre a obra de David e as produzidas na primeira metade do século XX reside na multiplicidade da trama envolvente, uma vez que consegue em uma única narrativa abarcar quase todas as dimensões do social e até do metafísico. As grandes perguntas a respeito da vida nacional, cada dia mais deprimente, são colocadas com especial ironia, a ponto de o romance se tornar singular e múltiplo. Singular, exatamente por constituir, ao contrário do que faziam os ficcionistas anteriores, uma imensa alegoria, uma imensa sátira à cultura da safadeza e à incultura nacional. A corrupção política ¾ mal execrável da brasilidade, todos os dias escancarada em todos os poderes ¾ é caricaturada de forma alegórica, porque miscigenada pela demagogia, pela mentira e pela desfaçatez do deputado, metonímia do sistema.

            A trama, sabiamente arquitetada entre política e sem-terras, repete jargões utilizados pelo poder, a fim de descaracterizar esta ferida social e fugir às soluções que a situação requer. Atribuir-lhes a pecha de “comunistas” encobre ideologias que transitam entre sistema político-econômico e sem-terras, à medida que ambos se valem dela como proteção, com objetivos diversos: preservar o bem, para uns, e adquiri-lo através de uma espécie de direito natural, para outros.

            Aliada à ideologia dos “oprimidos”, o narrador cria personagens e ações representativas da cultura brasileira, materializada na música de raiz, música caipira, a fim de defendê-la das investidas da mídia e da cultura importada, responsáveis pela extinção do sentimento do povo. Sentimento substantivado na simplicidade e, sob certo sentido, na inocência, visualizadas na tentativa de traduzir as letras para o inglês. A figura inconfundível do professor manietado a outra cultura simboliza bem a capacidade de o brasileiro “singe” – macaco –, de Mário de Andrade, valorizar o que vem da “estranja” em detrimento do que se produz e se pratica em todos os níveis artísticos representativos da brasilidade.

            O nó da narrativa se avulta na figura do Padre Deuteronômio, personagem que se situa entre duas fronteiras distintas: a social, física, e a metafísica, teosófica, à medida que ele vive todos os problemas da sociedade de Quadrínculo, como o seqüestro e o assalto ao banco, e os próprios limites, tanto na voz do narrador, quanto nos monólogos interiores, em que se transforma em linguagem e se revela sublime e humano, superior e inferior, capaz de resolver os problemas dos paroquianos; mas refém da condição humana.

            Sem dúvida, O sol dos trópicos é um romance-síntese de todas as verdades sociais do final do século passado e de técnicas narrativas materializadas em uma trama em que se cruzam fios de todas as espessuras e nós górdios que fazem dele uma obra singular que merece ser conhecida, pelo menos, por intelectuais e, principalmente, por professores que tem obrigação de conhecer a literatura nacional por inteiro. Sem dúvida, o melhor romance da travessia e da passagem para o século XXI, insulado ainda no sul do Brasil, porque vivemos um tempo em que a crítica literária preguiçosa e os professores amarrados às linhas de pesquisa só se dedicam a autores canônicos, sem se abrirem para o novo, afogando-se no estreito de Helesponto. Adjuva nos, Domine!