O escritor David Gonçalves [1952] está lançando o seu novo livro de contos Entrem e sejam bem-vindos. É o décimo sexto livro de sua autoria. No gênero literário, obviamente, pois na área técnica ele tem mais de dez livros também.   David é professor universitário, palestrante e consultor de empresas. Começou escrever aos quinze anos e não parou mais. Atualmente, é um dos autores mais lidos nos três Estados do Sul. Seus contos e romances, em linguagem simples, por vezes despretensiosa, relatam temas universais.

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1- Sobre o que trata seu último livro Entrem e sejam bem-vindos?

 

 Este livro é uma coletânea de contos escritos nos últimos três anos, com exceção do conto "Maria Rosa, Rosa Maria", de 1972, quando ainda estava em Jandaia do Sul [Pr]. Os temas são bem variados. Sou adepto do conto clássico. O Bem e o Mal estão numa luta constante e desigual. Eu sempre me preocupei com as questões sociais, a violência, o egoísmo, o fantástico e a ausência de valores. De modo geral, eles são frutos de uma condição social que se deu no Brasil: o êxodo rural. Pessoas simples e humildes, com o advento da tecnologia, foram expulsas de suas propriedades rurais e se instalaram nas periferias das grandes e médias cidades. Maringá é um belo exemplo disso, principalmente as cidades circunvizinhas, como Sarandi. Joinville, Curitiba, Londrina -- são outros exemplos. Nestes contos, há trabalhadores, fazendeiros, animais, padres, amantes, santos, loucos e demônios.

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2-Como você avalia a linguagem utilizada em seus livros, em relação a algumas críticas que você recebeu?

 

 Eu sempre optei por uma linguagem simples, objetiva, sem devaneios linguísticos e desestruturação da forma. Faço isto como opção. Nunca pretendi escrever difícil. No Brasil, poucos lêem. Se escrever de forma rebuscada, aí ninguém lê mesmo. Adoro, por exemplo, Guimarães Rosa e confesso que ele me influenciou muito. Mas só os especializados em Literatura lê Guimarães Rosa. Uma parte da crítica não gosta de um texto simples, objetivo. Outra parte, gosta e elogia. Bem, cada escritor tem seu estilo. Ter um estilo não é coisa fácil. O tempo dirá quem fica ou não. Coelho Neto escrevia muito bem, numa linguagem adjetivada, e era o grande herói na literatura nacional. Quem se lembra dele hoje?

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3. Como foi o lançamento do seu primeiro livro As flores que o chapadão não deu, em 1972? Por que foi censurado?

 

 Eu morava ainda no sítio, em Jandaia do Sul. Trabalhava na roça. Sou filho de pequenos agricultores. De noite, cursava a faculdade. As flores que o chapadão não deu, um romance, foi publicado em mimeógrafo, no diretório acadêmico da faculdade. Hoje, quando falo de mimeógrafo, a nova geração não conhece. É um processo rudimentar. E o romance pegou. O enredo é sobre o racismo no Brasil, aliás, um dos poucos livros que trata do racismo, um tema que ninguém queria tratar na época. Uma espécie de tabu. Por exemplo, nas escolas nunca se disse que Machado de Assis era negro. Todos os seus retratos aparecem como homem branco. Naquele tempo de ditadura militar, temas assim inquietantes incomodavam muito. Sua terceira edição foi retirada do mercado e só depois de dezesseis anos voltou a ser publicado, quando a ditadura já tinha se extinguida. Acho que a questão racial no Brasil está cada vez mais presente. Gosto muito desse livro. O tema é muito atual.

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4. Como foi o início de carreira?

 

 Foi muito difícil. Ninguém, até hoje, edita autores novos. Só os que estão no topo da lista. Ou quem tem padrinho forte. eu não tinha dinheiro e muito menos padrinho. aliás, ninguém quer ser padrinho de escritor que disseca os tema sociais. Naquele tempo, poderia ser confundido como comunista... Paguei a edição dos primeiros livros e vendi de mão em mão. Então, fui construindo, passo a passo, uma pequena legião de leitores. Hoje, há diversas teses de mestrado e doutorado sobre minha obra.

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5- É difícil ser escritor no Brasil? É possível viver de literatura?

 

 Poucos vivem de literatura no Brasil. só os que têm mídia nacional. O escritor que faz uma literatura própria, sobre o nosso chão e nosso povo, não consegue viver dela.  Eles precisam dedicar-se a outras profissões: professor, jornalismo, pequenos empresários, advogados, médicos etc. A cada dia, entretanto, há mais leitores. O problema todo se resume na pouca influência de nossa língua portuguesa. Mas o importante é ter um projeto a longo prazo e não desistir. Também é importante escolher temas que não caiam no esquecimento de um dia para outro. A gente precisa ter um vôo de águia e não vôo de borboleta, que dura pouco, desaparece numa semana.

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6. Qual a tiragem média de seus livros?

 

 Em torno de 3 a cinco mil exemplares.

Todas as edições são em formato de bolso. Porque é mais prático, mais barato, e não assusta os leitores. Já o livro grande mete medo nos leitores despreparados. Por causa do tamanho. Os críticos acham ainda que o livro de bolso não tem valor. É pura bobagem deles. O que vale mesmo é o conteúdo.

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7. Qual a relação do Norte e Noroeste do Paraná com a sua obra?

 

 Toda a minha obra se pauta no Norte e Noroeste do Paraná. Para não prejudicar ninguém, adotei uma cidade-metáfora: Quadrínculo. Mas ela representa qualquer cidade da região.  Esta região do Paraná é um verdadeiro laboratório étnico e social. Não tem no Brasil uma região tão rica em assuntos. Jandaia do Sul, Apucarana, Arapongas, Londrina, Maringá são extraordinárias como fonte de inspiração. A cada dois meses, passo uma semana nesta região, estudando, pesquisando, conversando com as pessoas. De vez em quando, alguém me pergunta: por que não escreve sobre Joinville ou qualquer outra cidade de Santa Catarina? O romance Pó e sombra se passa na região de Joinville, Vila da Glória, São Francisco do Sul, precisamente na bela Baía da Babitonga. O álcool e a droga são os temas deste livro. Mas não gosto de nomear as cidades em meus livros. Por causa deste livro, sempre alguém me pergunta: o personagem tal é o fulano de tal? Algumas pessoas gostam de misturar a ficção com a realidade!

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8. O que você pensa sobre os concursos literários?

 

 No começo, eu tinha grandes esperanças sobre os concursos. Aquela história de ganhar prêmios, ser reconhecido etc. Mas logo me desiludi: os concursos, na maior parte das vezes, não passam de "grupinhos e panelinhas", que já escolheram os seus premiados... Bem, participei de um só: e ganhei, no Estado de Goiás, com o livro Atualização das formas simples, um estudo sobre a obra de Hugo de Carvalho Ramos, um grande escritor goiano. Depois, nunca mais. Recentemente, a Academia Catarinense de Letras me presenteou com o prêmio Othon Gama d´Eça, pelo conjunto de minha obra.

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9. Por que nunca escreveu poesias?

 

 Até rabisquei algumas poesias. Mas não me identifiquei com o gênero. Admiro quem escreve. Sou um fiel leitor de poesias. Adoro Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Vinícius de Morais. Dos poetas brasileiros atuais, considero Gilberto Mendonça Teles o melhor, com uma obra consistente e inteligente, sem abandonar o lirismo. Em Santa Catarina, o poeta Alcides Buss, entre outros, é o que mais me cativa. Obviamente, há gente nova fazendo boa poesia. Sou apenas um leitor de poesias, não sou poeta.

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10. Quais são os autores que exerceram influência sobre sua obra?

 

Diversos me influenciaram. Na literatura brasileira, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Érico Veríssimo e outros. A gente não faz literatura do nada. Na literatura mundial, admiro Tolstoi, Dostoiévski, Bashevis Singer, Eça de Queirós, Maupassant, Allan Poe, Luigi Pirandello, Anton Tchekhov...  Os outros escritores são indispensáveis.